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Uma das maiores distorções a que se tem submetido o estudo da literatura portuguesa tem sido a ênfase injustificável na metodologia estética pseudonímica a que o poeta português nomeou por “obra heterônima”. Esse processo de criação literária, existente desde os tempos bíblicos, reveste-se de uma ficcionalização especial nas mãos de Fernando Pessoa, em meio ao tédio e ao autoritarismo da Lisboa das primeiras décadas do século passado. No entanto, trata-se quase de uma constante em terras lusitanas: veja-se Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha), José Régio (José Maria dos Reis Pereira), Antonio Gedeão (Rômulo Vasco da Gama de Carvalho), Herberto Hélder (Luís Bernardes de Oliveira), Mário Cláudio (Rui Manuel Pinto Barbosa Costa), Adília Lopes (Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira). E também em terras lusófonas africanas: José Luandino Vieira (José Vieira Mateus da Graça) e Mia Couto (Antonio Emílio Leite Couto). O Brasil não fica de fora, com Marques Rebelo (Eddy Dias da Cruz), Tristão de Ataíde (Alceu Amoroso Lima) e o contemporâneo Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira).
Também foram muitos os escritores de língua estrangeira que usaram pseudônimos Novalis (Friedrich Von Hardenberg), Voltaire (François Marie Arouet), Sthendal (Henri Beyle), Anatole France (Jacques Anatole François Thibault), André Maurois (Emile Herzog), George Sand (Amandine Aurore Lucile Dupin), Paul Éluard (Eugène Grindel), Mark Twain (Samuel Langhorne Clemens), George Orwell (Eric Arthur Blair), Lewis Carroll (Charles Lutwidge), Rubem Dario (Félix Ruben Garcia Sarmiento), Pablo Neruda (Neftali Ricardo Eliecer Reys Basoalto), Gabriela Mistral (Lucila Godoy y Alcayaga). Entre muitos outros, inclusive vários laureados com o prêmio Nobel.
Em língua portuguesa, o maior uso de pseudônimos vamos encontrar no padre Manuel Antunes: ao todo cento e vinte e quatro, colaborador que era da revista Brotéria em temas filosóficos e literários – no seu caso, o recurso intensivo à pseudonímia tem sido explicado pela necessidade de apresentar diversificação autoral, uma vez que precisava escrever vários artigos em um mesmo número de revista. Sem falar em se constituir uma utilidade estratégica para iludir a censura do Estado Novo, que averiguava mensalmente os conteúdos publicados. Manuel Antunes começa a colaborar na Brotéria em 1949 e foi seu diretor de 1965 a 1982; escreveu nela quatrocentos e dez artigos dos quais duzentos e cinqüenta e dois deles foram assinados com os seus múltiplos pseudônimos. O que significa dizer que os adeptos do primado da pseudonímia pessoana nas letras portuguesas, já teriam, diante de Manuel Antunes, que justificar no mínimo a sua pouca informação e reconhecer de imediato o padre como objeto analítico maior do aludido primado.
O pseudônimo, como se sabe, é um nome artístico. É usado com mais freqüência na música e no cinema: Woody Allen (Allen Stewart Konigsberg), Charles Aznavour (Shahnour Aznavurjan), Brigitte Bardot (Camille Javal), Enya (Eithne ní Bhraonáin), Rita Hayworth (Margarita Carmen Cansino), Marilyn Monroe (Norma Jean Mortenson). Ele representa uma nova vinda ao mundo, desta vez, no berço da arte. Apesar de típico do romantismo, atravessou as vanguardas e se estendeu até nossa época. Trata-se de um novo nascimento a partir de um novo batismo.
O uso do pseudônimo tem um caráter liberador, tanto em relação aos outros como a si mesmo. Assumir essa postura implica em contestar a imagem da identidade na antiguidade clássica, entendida como cópia ou duplicação de um modelo sempre igual a si mesmo. Na literatura, se por um lado, permite ao autor reduplicar-se, por outro, talvez consiga protegê-lo da opinião pública, além de atuar, também, como estratégia discursiva.
Além de criar nomes artísticos para os poemas que escrevia, Pessoa deu-lhes cosmovisões, estilos de época, biografias. Já tivemos oportunidade de discorrer em ensaio sobre esse aspecto, em 1985, aos cinqüenta anos da partida do poeta (A Lenda de Fernando Pessoa, Recife: 2003). No ano de 1935 ele escreve a conhecida carta a Adolfo Casais Monteiro explicando a possível gênese dos “heterônimos” tendo em vista que sua obra poética contém versos em seu próprio nome e outros assinados por Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, pseudônimos que Pessoa converte em “personagens de um drama” lírico monologal. A partir daí a pseudonímia começa a ter em Fernando Pessoa um relevo que não acontecera em outros autores, chegando-se ao extremo de afirmar o chamado “primado da heteronímia”, segundo o qual “a singularidade da poesia de Pessoa estaria na proposição não de um só poeta, mas de quatro”: aí residiria o enigma e a força da sua poesia.
Quando criança eu inventava livros e falava sozinha com eles nas tardes intermináveis do sobrado da Rua do Lima, no enorme silêncio gerado no espaço entre o sono da tarde da minha avó Lucila e a mímica habitual de Maria, a empregada muda e surda. A solidão cria uma metodologia especial para a necessidade de comunicação e a arte tem sido sempre uma efetiva e presente resposta, diálogo permanente e companhia fiel que termina por sobreviver ao seu próprio agente criador. A capacidade imaginativa do artista habitualmente o arrasta por caminhos inacreditáveis ao senso comum, mas que, ao surgirem, sempre lhe parecem simples e familiares. Essa maneira de olhar e atuar no mundo funciona inclusive como um código de reconhecimento entre os que são artistas verdadeiramente e aqueles que apenas aspiram a essa condição. Na verdade, além de implicar no domínio técnico, escrever bem um poema é, sobretudo, manter-se fiel às brincadeiras mágicas da infância, sem qualquer medo da censura pública, transportando-as à idade adulta com ousadia e naturalidade.
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