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CLÁUDIA CORDEIRO Tavares da Cunha Melo, recifense, é
professora especialista em Literatura Brasileira, ensaísta e
webdesigner. Em outubro de 2003, lançou, na USP, seu ensaio
Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo
(disponível em e-book). Obteve, em 1985, o primeiro lugar do prêmio
de ensaio Mauro Mota (UBE-PE). No ano de 2005, foi
selecionada para a antologia Marcas do Tempo VII, p. 37, 38,
como resultado da classificação do seu poema "Assalto à alegria", no
concurso literário da Biblioteca Pública Municipal "Prof. Gerson
Alfio De Marco", SP.
Leia o prefácio de Ermelinda Ferreira ao ensaio de
Cláudia Cordeiro. Clique na imagem da capa

Cláudia Cordeiro organizou, juntamente com Antônio Campos, a coletânea
Pernambuco, Terra da Poesia. Um painel da poesia pernambucana
dos séculos XVI ao XXI lançada no dia 1º de dezembro de 2005, na
Livraria Cultura, PE. Como artista plástica, realizou várias
exposições e dirigiu a Escolinha de Arte Garibaldi Brasil no Sesc/AC
- 1980/1981, quando manteve intercâmbio cultural com a Escolinha de
Arte de Varsóvia. Foi coordenadora de planejamento da Diretoria de
Assuntos Culturais da Fundarpe (1987/1988), enquanto Técnica em
Atividades Culturais daquele órgão (1987/2000). Foi revisora, mídia
e tráfego da agência Gruponove. Em 2004, organizou e editou o CD
Plataforma para a Poesia, vol. 0, "Poemas Indispensáveis", com
apresentação de Deonísio da Silva.
É editora do Plataforma para a Poesia núcleo virtual de
um projeto maior de sensibilização de leitores para a Arte Poética,
através de sua veiculação em diversas mídias, e do Trilhas
Literárias que pretende abrir portas à percepção dos valores
estéticos através de artigos e ensaios da crítica literária. Em
2006, editou e executou o projeto Vozes Pernambucanas,
realizando, com recursos multimídia e patrocínio do Instituto
Maximiano Campos - IMC, 11 palestras, sendo 8 delas em São Paulo -
SP, e as demais em festivais literários do Estado de Pernambuco. E
outras palestras sobre variados temas literários e o advento da WEB.
Em 2007, criou e organizou o I Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo,
já em quarta versão (2010).
Leia o ensaio disponibilizado em
e-book no Scribd

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Cláudia Cordeiro
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Os que acompanharam os trabalhos anteriores de
Geraldino Brasil sentirão no longo poema “Todos os dias, todas as
horas” (Cadernos da Poesia Pernambucana — vol. 1, Ed. Pirata,
1985) — o acirramento do seu testemunho das injustiças cotidianas,
da hipocrisia, da violência e do abandono legado à grande maioria da
raça humana.
O tom de súplica, quase oração, faz
lembrar o seu poema “Pessoas e coisas” (do livro Cidade do Não).
Mas há uma grande diferença: o “deus” de “Todos os dias, todas as
horas” é um “deus” caluniado e desamparado, não contando mais com a
benevolência de seu filho que o carrega de lástima:
É muito sofrimento para um Pai e se
possível me fosse ser
absoluto em alguma
coisa
eu teria uma pena absoluta, infinita
da Tua tristeza e da
Tua solidão,
quando Te escondes no Céu para chorar
nos Teus desgraçados
momentos dos
teus filhos ofendidos,
momentos de todos os dias, de todas
as horas, de todos os
minutos no
mundo,
porque eu não sei de um em que não Te
ofendam, (...)
(grifos nossos)
O clima de mútuo desamparo (do poeta e
da própria divindade) é utilizado para que possa incursionar,
através do espaço lírico da recordação, no registro cáustico do
real, um real que ganhará autonomia na obra literária porque,
conforme afirmação do próprio autor, “Felizmente o poeta não é a
poesia que faz...”.
Assume o poema o caráter de denúncia e
a força da inquirição que se segue poderia dizer-se unicamente
didática se não surgisse tão orgânica do texto literário,
impelindo-nos a indagar com o poeta: “por quê?”
Registro
mais que teu filho doente foi assassinado dentro
do
cárcere,
que tem o outro lado do duro Código
Penal, seu lado bom,
de o
proteger.
Pois a honrada sociedade exigiu
segurança e armou e elegeu
autoridades.
Como então
sob sua proteção eles, também Teus filhos, são
assassinados?
(grifos nossos)
Este é um dos registros mais
singulares do poema, pois o Estado, movido pela sociedade que exigiu
segurança, termina por acumpliciar-se com a tirania e o caos
violento dessa mesma sociedade que diz proteger.
Pondo guizos nos “professores da
mentira e da simulação” que, protegidos pelas mais modernas
técnicas, promovem o engodo para os mais desavisados, o poeta
registra a deterioração dos meios de comunicação e quebra toda a
possibilidade de pieguismo: “No momento em que eu mudava de canal de
Televisão o jovem repórter/dizia que a autoridade se revelava
chocada com o fato acontecido quando ele dormia.”
Não escapará também ao crivo do poeta
a relação dialética entre o “Pedinte milenar e necessário” e a beata
que dele precisa para ganhar os céus. Ou mesmo o sorriso burocrático
e eufemístico da enfermeira a querer esconder a morte de um
paciente, para que o outro, movido pela revolta da farsa social que
dava esperança ao moribundo, não queira “rasgar as bulas/mentirosas
que o animavam”, e olhe “desconfiado o crucifixo de soslaio...”. E o
poeta se volta sobre seus próprios passos. Até a poesia é vigiada:
“Lugares férteis para poemas, um hospital ou um cárcere”.
Esse caráter de denúncia das coisas
encobertas pela farsa social atravessa todo o longo poema
arrastando-nos mais uma vez para as sempre polêmicas questões que
envolvem a literatura de acusação, recentemente contemplada
com um interessante artigo de Franklin de Oliveira (Caderno Cinza,
ano 1, pp. 22 a 30, RioArte, 1984). O crítico tenta — e
até certo ponto consegue — elucidar com mais clareza a origem e o
conceito dessa categoria artística, segundo ele introduzida no
Brasil por Otto Maria Carpeaux.
Para ele , essa categoria artística
nasceu com o Velho Testamento: quando os profetas contestavam,
fundaram a literatura de acusação e, quando preconizavam
novos modelos de vida, realizavam a literatura empenhada, ou
engajada.
Ora, como próprio do lírico, e ao
contrário da literatura engajada, a poesia de Geraldino não propõe
receitas — propostas políticas, religiosas etc. — para a solução do
caos desnudado no texto. No entanto, fica claro que o poeta
contesta: “tenho o dever de fazê-los saber/ que não fiquem
tranquilos, que há os que sabem das suas omissões,/ há os que têm
vigilância (...)”. É, pois, uma literatura a par daquela que,
conforme citação do próprio Franklin de Oliveira, fez Uvarov,
ministro da Educação do tzar Nicolau I, dizer que “só quando não
houvesse mais literatura, seria capaz de dormir em paz”. Estaria
então caracterizada a literatura de acusação na poesia de
Geraldino Brasil?
Para fazermos tal afirmação seria
necessário despojar-nos da afirmação de Franklin de Oliveira de que
na literatura de acusação há “tão só e exclusivamente a
representação — a transposição da realidade social para o plano da
realidade literária, vindo a posição contestatória”.
Consequentemente, o romance, conforme aponta o crítico, é seu melhor
instrumento.
Ora, há uma posição contestatória
clara na poesia de Geraldino, embora a contestação só se justifique
por ela própria, seu caráter de denúncia. O resto é puro desamparo,
porque a perquirição que a caracteriza é puro efeito e consequência
do “estado anímico” do poeta embotado no caos. É voz uníssona com o
leitor que a sente emergir orgânica do texto, cheia da indignação
que beira à cólera. Portanto, ao efeito de demonstração, que na
poesia de Geraldino implica num envolvimento por habitar o espaço da
recordação, segue-se clara, contextualizada, esse tipo de posição
contestatória que tem o tom de súplica, mas uma divindade golpeada,
desamparada que também não o pode socorrer. Desse modo estaria
descaracterizada na poesia de Geraldino a literatura de acusação?
Atendo-se mais ao romance não
caracterizando como a literatura de acusação poderia ocorrer
ou não em poéticas que apresentassem com maior frequência
indicadores do lírico (Emil Staiger), Franklin de Oliveira, apesar
do brilhantismo de muitas de suas elucidações, não ajuda a resolver
a eterna polêmica sobre o teor artístico/didático da poesia
engajada.
Mas nossa intenção, aqui, é apenas
registrar que existem na poesia de Geraldino Brasil matizes mais
frequentes da literatura de acusação que da literatura
engajada. Isso procuramos exemplificar com o poema aqui indicado
e fragmentariamente citado.
No entanto, para nós, o mais
importante, agora, é dirigirmos ao poeta a mensagem de Eurípedes:
“... quando desesperamos, encontramos uma saída".
(*)
Artigo
originalmente publicado no Recife: Diario de Pernambuco, Caderno Viver, Panorama
Literário, 30 de maio de 1986, data em que Geraldino Brasil
(27.02.1926-07.01.1996) lançava seu nono livro de poesia: Bem
Súbito (1986). Esse grande poeta brasileiro é mais conhecido na
Colômbia que no Brasil, graças, principalmente, à sensibilidade de
outro grande poeta, Jaime Jaramillo Escobar, que traduziu e
publicou, em 2003, Poemas útiles (orelha de
Alberto da Cunha Melo) .
Neste ano de 2010, com o Antologia Poética,
uma superprodução de Beatriz Brenner, sua filha (foto, Paris, 1994),
e prefácio de Mário Hélio, o poeta ressurge em grande estilo com
alta visibilidade. O rico legado para a literatura brasileira virá
em formato livro convencional, e-book, áudio-book, e na versão
Braille. Acesse ao convite:


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