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Noite de nimbos: as corujas,
escondidas atrás dos ventos,
espreitam, junto dos rochedos,
os camundongos sonolentos.
e aquela estrela de domingo,
atravessa a noite dormindo:
só o cão escuta as pisadas
subindo os degraus de concreto:
pisadas leves, menos altas
do que as batidas e o furor
de Yacala no computador.
Alberto da Cunha Melo, Yacala
Yacala, personagem de nome quicongolês e símbolo do
homem universal, mora numa palafita nordestina entre
brinquedos eletrônicos e um computador arfante, sucata
de luxo
da universidade. Autodidata e matemático
experimental, dedica-se a “reciclar os dados do lixo,
sobre a lama”, a fim de “traduzir em cifras exatas/a
voz do cosmo em voz humana”. A tenacidade de Yacala
revela todo o poder virtual da poesia. A poesia que
existe na ciência, na fé, nos astros, na natureza, no
coração humano, no amor e no calvário. A poesia que
não está ainda na literatura, mas que pulsa, em
potência, dentro do poeta. A natureza da poesia é,
portanto, virtual.
A palavra virtual,
segundo Pierre Lévy, vem do latim medieval,
virtualis, derivado de virtus, força,
potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que
existe em potência e não em ato. O virtual não se opõe
ao real, mas ao atual. Contrariamente ao possível,
estático e já
constituído, o virtual é como o complexo
problemático, o nó de tendências ou de forças que
acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou
uma entidade qualquer, e que chama um processo de
resolução: a atualização. O problema da semente, por
exemplo, é fazer brotar a árvore. A semente “é” esse
problema, mesmo que não seja só isso. Isto significa
que ela “conhece” exatamente a forma da árvore que
expandirá finalmente sua folhagem acima dela. A partir
das coerções que lhe são próprias, deverá inventá-la,
co-produzi-la com as circunstâncias que encontrar. Yacala narra a epopéia da irrupção da poesia nas
condições mais imprevisíveis. Em Yacala, o
livro, a poesia se faz a partir do relato do processo
mesmo de criação. É a investigação da potência contida
na semente: “gorda de luz, a sua estrela/quase rompeu
a fina rede de cognição, onde Yacala/a tinha, entre
quatro paredes”.
Nos anos 1970
eram comuns as edições caseiras de poesia no Brasil.
Em formato pequeno, com papel barato e folhas
mimeografadas e presas em geral por grampos de
grampeador escolar, essas edições eram veiculadas
diretamente pelos autores em bares, eventos,
universidades. Nessas edições, a aparência pouco nobre
dos livrinhos e o caráter quase secreto da
distribuição procuravam se contrapor diretamente à
política de cooptação intelectual e às restrições
expressivo-comportamentais determinadas pelo contexto
autoritário do país. A poesia, enquanto semente,
resistia à onda de imposição do silêncio, e continuava
a brotar.
Quase quatro
décadas depois, essas edições caseiras parecem ter
encontrado um novo e eficiente suporte para sua
divulgação: o ciberespaço, através de blogs e grupos
que se reúnem para ler, discutir e produzir
literatura. Este é o caso do grupo que aqui se
apresenta, os Poetas Independentes, criado em
março de 2006, cuja página pode ser acessada na
Internet através do link:
http://br.groups.yahoo.com/groups/poetasindependentes.
Desterritorializando o texto, contrapondo-se às
políticas editoriais de mercantilização do livro que
continuam deixando à margem os novos e os novíssimos
escritores, a Internet abriu essa possibilidade de
concessão de um “lugar”, um “sítio”, um “site” –
permanente, acessível e democrático – para os
“sem-texto publicado”. A poesia, sempre resistente,
encontra novamente um caminho para brotar.
A escrita
digitalizada, em ambiente de ligação em rede, goza da
mesma prerrogativa da fala, isto é, do estatuto do
direto, do atual, do simultâneo, simulando assim a
natureza presencial da voz. Goza também da
prerrogativa do dialogismo, esse caráter reticular da
comunicação, que arrasta a escrita num movimento de
dissolução dos corpos, propiciando a confluência de
espaços diversos num mesmo tempo. A desmaterialização
da escrita, ao abolir a duração, abole a distância;
convoca espaços até então longínquos, temporalmente
distantes, porque a distância entre lugares mede-se
sempre pelo tempo do percurso. Daí, talvez, a
pluralidade das procedências dos sessenta e dois
associados deste grupo, espalhados em vários estados
do Brasil – Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Goiás,
Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul,
Brasília, Tocantins – e até do exterior, Moçambique.
Mas a escrita
digitalizada em rede goza também de uma prerrogativa
mais contraditória: a de, comportando-se como um
arquivo imenso, infinito e perene, aliar-se a uma
produção imediata, não-linear e efêmera, contrária à
cultura do livro impresso, fundada na noção de
propriedade intelectual, autoridade autoral,
linearidade narrativa e não-interatividade. A edição
digital libera o texto de sua relação com o livro.
O crescimento
vertiginoso da Internet e a proliferação dos textos
neste suporte levam, inevitavelmente, à pergunta:
seria o fim do objeto-livro?; uma idéia aceita por
muitos, e transformada, já há algum tempo, em tema das
próprias obras literárias, a exemplo do romance Não
há nada lá, de Joca Reiners Terron. Em certo
momento, ele considera a hipótese de não haver mais
tempo ou lugar para livros e “objetos perfeitos” no
mundo. “Me pergunte como seria a morte do livro”,
comenta. E lança, então, o livro para o alto, como se
fosse um pombo, com as páginas se abrindo como asas, e
o objeto desaparecendo, “como se nunca tivesse
existido”.
Embora não se
possa abstrair os textos dos objetos que os comportam,
ignorando que os processos sociológicos e históricos
de construção do sentido se apóiam nas formas em que
são dados a ler, nada impede que a poesia, em seu
natural impulso de vir-a-ser em potência possa
circular confortavelmente entre os diversos meios
disponíveis, e com ganho. Pois a cada mudança de
suporte, opera-se uma mudança de uso, de natureza do
público e de sua relação com o texto, o que representa
novos desafios. Segundo Roger Chartier, o mais
provável para as próximas décadas é a coexistência,
que não será forçosamente pacífica, entre as duas
formas do livro e os três modos de inscrição e de
comunicação dos textos: a escrita manuscrita, a
publicação impressa, a textualidade eletrônica. “Essa
hipótese é certamente mais sensata do que as
lamentações sobre a irremediável perda da cultura
escrita ou os entusiasmos sem prudência que anunciavam
a entrada imediata de uma nova era da comunicação”.
O grupo Poetas
Independentes, que nasceu e se desenvolve em meio
digital, mas que debuta, com esta antologia, também no
universo da cultura impressa, é um exemplo vivo e
atuante das possibilidades de confronto da poesia com
ambientes cognitivos distintos e diferentes formas de
leitura das mesmas obras. Quinze poetas participam
desta primeira antologia: Bruno Candéas, Carlos Maia,
Clóvis Campelo, Conceição Pazzola, Demóstenes Félix,
Gerlane N. de Melo, José Calvino, Líris Letieres,
Martha Galrão, Sílvia Câmara, Teresa Oliveira,
Verônica Aroucha, Vilma Abubua, a maioria poetas
iniciantes; além das participações especiais de
Alberto da Cunha Melo, que comparece inclusive com um
poema inédito: “Cancioneiro para o terceiro mundo”, e
de Luiz Guimarães, compositor de frevo reconhecido,
músico e poeta revelado dentro do grupo. A capa foi
elaborada por Cláudia Cordeiro, editora dos sites
Plataforma para a Poesia e Trilhas Literárias.
“Expoemas”: que não
se entenda, neste título resgatado a uma obra de
Augusto de Campos, a idéia de esgotamento ou superação
da poesia. Na falta do hífen, a intenção da palavra é
oposta: são poemas que se expõem, ora pela fugacidade
do meio digital, ora pela perenidade do meio impresso,
cumprindo a missão de Yacala: transformar a potência
da poesia virtual, real em si mesma ainda quando inexpressa ou impublicada, na atualidade plena da
palavra. Digital e fugaz, ou impressa e perene, não
ignoramos os sons de seus passos que, em essência, nos
procuram: “pisadas leves, menos altas/do que as
batidas e o furor/de Yacala no computador”.
Ermelinda Maria Araújo Ferreira
Recife, 5 de agosto de 2007.
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