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2004: Declaração de Alberto da Cunha Melo sobre sua
produção primeira de sonetos e outras formas literárias:
Meu pai, Benedito Cunha Melo, era uma espécie de decano da cidade de
Jaboatão, hoje a segunda cidade pernambucana em arrecadação, depois da
capital. O adolescente neurótico, como sempre, quando sabe não poder
superar o pai, procura ser diferente dele. Fiz, no início, uns raríssimos
sonetos e trovas, as duas espécies de poemas em que o velho se
especializou, mas, agradeço aos cupins do tempo os terem devorado para
sempre, a não ser dois sonetos e uma trova, em sua homenagem, depois de
sua morte. Como, já o disse, quem não pode ser maior deve procurar ser
diferente. Antes de minha primeira fase, exaustivamente produzida em cinco
quartetos em octossílabo, e pelos motivos que já expliquei, fiz vários
poemas, alguns publicados em revistinhas mimeografadas, em versos sempre
curtos, e procurando dar a cada um deles uma certa unidade formal,
confissão inconsciente de um homem que depois se descobriu um
construtivista atávico, um neo-clássico até a medula. Dessa primeira fase,
cujo núcleo antológico se encontra no meu livro Poemas Anteriores,
concebido editorialmente por Cláudia Cordeiro, minha mulher, e publicado
pelas Edições Bagaço, com apoio da Prefeitura do recife, o teor
classicista foi detectado muito tempo depois, quando apareceu na vida de
minha poesia Bruno Tolentino: toda aquela poesia estava vazada em versos
brancos, isto é, sem rima.
As raras análises críticas que o livro mereceu não tocaram em outro
indicador clássico: era uma forma fixa. Mas, eu mesmo nunca apregoei isso.
O octossílabo dominou minha poesia, em duas fases, na primeira e terceira,
talvez porque tinha a cadência prosaica da conversa, do desabafo não
retórico, da confidência, enfim. É interessante lembrar que frei Caneca,
herói pernambucano, chamava o octossílabo de "octonário, redondilho
perfeito, lírico maior". Para Wolfgang Kayser, "ao tetrâmetro iâmbico
corresponde o octossílabo nas línguas românicas". Como aquele metro é
composto de quatro pés, cada um composto de um sílaba breve e outra longa,
característica do iambo, temos em nossas línguas neolatinas (4x2=8),
portanto, o correspondente perfeito do octossílabo. Estava há pouco
estudando outros metros e outras estruturas, mas a vontade se foi e, com
ela, o tempo e a poesia que poderia ser feita e que não mais será.
CORDEIRO, Cláudia (org.). Uma estranha beleza: entrevista com o poeta
Alberto da Cunha Melo. In: Cronos: Revista de Pós-graduação em Ciências
Sociais daUFRN, v.5/6, n.1/2. NATAL: EDUFRN, 2000, p.317-33, jan/dez,
2004/2005.
Entrevista originalmente concedida ao site Trilhas Literárias, editado por
Cláudia Cordeiro. Entrevistadores: Alcir Pécora, Alfredo Bosi, Anderson
Braga Horta, Astier Basílio, Deonísio da Silva, Domingos Alexandre,
Eduardo Martins, Ermelinda Ferreira, Evandro Affonso Ferreira, Isabel
Moliterno, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, José Nêumanne Pinto, Mário Hélio,
Martim Vasques da Cunha.
Acesse a entrevista completa:
http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/trilhasentrealbmar04.htm
Cláudia Cordeiro
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