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Alberto da Cunha Melo no ScribdRESPEITO À POESIA

 

 

Partilhando

A NOITE DA LONGA APRENDIZAGEM.

NOTAS À MARGEM DO TRABALHO POÉTICO,

DE ALBERTO DA CUNHA MELO

Por Cláudia Cordeiro

         Alberto nunca  fez concessões à prosa em sua poesia. Um "horaciano", como se autodenominava, ele separou tudo que escreveu em prosa, além de seus artigos publicados nos jornais e revistas, no livro que intitulou A longa da noite aprendizagem. Notas à margem do trabalho poético.

        Os exemplares manuscritos, como toda poesia de Alberto o é, abrem-se com notas reiteradas, com registro em anos diversos no início dos volumes, colocando-me como uma espécie de guardiã, pois vários temores o assaltavam tanto pelas informações no livro contidas quanto, especialmente, pela não familiaridade com sua caligrafia de quem por acaso viesse a digitá-lo.

(2 das páginas originais digitalizadas - Anexo I )

"TUDO REALIZADO E PRONTO/ E PÚBLICO E DEFINITIVO,/ TAL UM DIÁRIO OFICIAL/ GRIFADO PARA A ETERNIDADE" Alberto da Cunha Melo.

 In Círculo Cósmico. Recife: UFPE, separata da revista Estudos Universitários, 1966.

                                                                                          Ermelinda Ferreira, com quem convivi intensamente durante a minha especialização em Literatura Brasileira e depois na elaboração do ensaio Faces da resistência na poesia de Alberto da Cunha Melo Ensaio em e-book no SCRIB, quando comentávamos sobre alguns cuidados que Alberto tinha em relação à sua obra, alertou-me: "Alberto sempre teve absoluta noção de sua grandeza literária". Também foi ela quem melhor sintetizou o nosso relacionamento no prefácio do referido ensaio. Hoje constato, mais uma vez, a poderosa antevisão de Alberto. As notas que escreveu nos volumes se justificam pelo interesse, além  de minhas expectativas, que vem despertando o livro.  Já estamos na quinta proposta de edição. Sei que virão outras, mas, por enquanto, continuo apostando que ainda me resta tempo de vida suficiente para tratar a obra com os cuidados que o poeta me confiou.

      A primeira pessoa estranha a mim que digitalizou algumas páginas do livro foi a cineasta Luci Alcântara a quem abri as portas, as gavetas e estantes de minha casa para o seu filme Geração 65. Aquela coisa toda.Assista ao vídeo Assim sempre faço com todos que procuram divulgar a obra de Alberto. Acredito que a boa repercussão do filme tenha contribuído para acentuar o interesse de alguns amigos e editores. Além disso, o programa "Jardins da Literatura", da Rede Globo, editado pela jornalista Heloísa Markman, filmou algumas páginas Assista ao vídeo. Embora a temática fosse outra. Mais recentemente cedi a uma inesperada amiga transatlântica, Katia de Abreu ChulataAssista ao vídeo com poema traduzido por Katia, cópia do primeiro exemplar da obra. Agora está em Lecce, pretende rumar para as universidades francesas e outros destinos em busca de um porto seguro. Antes desses episódios, raríssimos contatos nossos tiveram o livro em mãos.

      Como sempre rezei e rezo pela cartilha de que não se deve esconder a luz debaixo do alqueire, aqui vão duas das "Notas à margem do trabalho poético". Partilho com vocês, internautas e amigos da poesia, A NOITE DA LONGA APRENDIZAGEM. A Grande Teia sempre foi para mim o refúgio mais público e gratificante de divulgação da obra de Alberto da Cunha Melo, do meu amor por ele e pela Arte Poética.

 

 

Recife, 7/11/83

      

         Vindo a pé, da rua do Imperador para o edifício onde moro, na Av. Manoel Borba, todo um poema elaborei do princípio, meio ao fim. E pensei registrá-lo no papel quando chegasse em casa. No meio do caminho, algo, talvez mais importante do que esse poema só mentalizado, o dissolveu no ar. Isso tem acontecido frequentemente: vivo escrevendo, nos últimos meses, muitos poemas no ar. Como desculpa amarela de um poeta mediano, com um nível apenas suportável de leitura, eu poderia dizer que esses poemas, dissolvidos no ar, talvez fossem minhas únicas obras primas. Como sabem, não estou falando em poemas que a gente escreve, numa mesa, e perde depois entre papéis jogados no lixo. Estou falando naqueles poemas vivos, que a gente escreve na mente, andando, andando, pelas ruas do Recife,por falta de dinheiro e de método e que a realidade, mais forte do que eles, com um simples sopro, os dissolve no ar. Ah, poemas que não conseguiram chegar em casa, como os vivi, como os amo assim, só com sua lembrança, uma palavra; às vezes, nem isso: só um sentimento indefinido. A todos vocês, poemas não escritos, eu os saúdo no dia de hoje, um dia bom, muito bom para mim: dez por cento de agonia a menos do que o dia de ontem.

 

(Páginas originais digitalizadas em 750px - Anexo II  )

 

Rio Branco, 7/02/81



Passei o dia hoje tomando rum e escrevendo para as pessoas que, de uma forma ou de outra, estão relacionadas com minha vida. Escrevi doze cartas, estimulado por Cláudia, que não me deixa em paz, enquanto não achar que estou afetivamente pacificado com o mundo que é o meu, de meus amigos desesperados, de minha família  encurralada num bairro de Jaboatão. Hoje, à noite, minha Clau leu para mim um belo poema que guardamos de uma edição do Jornal do Brasil, de 25/9/80. Trata-se do poema intitulado "Da poesia", de Christoph Meckel: "A poesia não é o lugar onde se trata a beleza./Trata-se aqui do sal, a arder nas chagas/ da morte, de línguas envenenadas. //De pátrias semelhantes a botas de ferro./ A poesia não é o lugar onde se enfeita a verdade./Trata-se aqui do sangue que jorra das feridas./ Da miséria, miséria, miséria do sonho./ De devastação e escarro, ringir e utopias./A poesia não é o lugar onde se cura a dor.//Aqui se trata da ira e do engano, da fome/ (os graus da saciedade não são contados)./Trata-se aqui do devorar e do ser devorado/ da fadiga e da dúvida, eis a crônica dos sofrimentos.// A poesia não é o lugar onde o morrer não é cruel./ onde se mata a fome, onde se glorifica a esperança.//A poesia é o lugar da verdade ferida de morte.// Asas! Asas! Cai o anjo, plumas/uma a uma esvoaçam, sangrentas, na tormenta da História!// A poesia é o lugar onde o próprio anjo não é poupado."

 

(Páginas originais digitalizadas em 750px - Anexo III  )


 

(Páginas originais digitalizadas em 750px | Anexos: I IIIII)

Arte e editoração de Cláudia Cordeiro

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